A volta dos que não foram ou meu canal no Youtube

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Faz tempo que eu não apareço por aqui e a lista de desculpas para isso poderia se estender por muitas linhas.  Ainda que eu nunca tenha deixado de acreditar neste canal de comunicação, algumas coisas estavam me incomodando demais para eu simplesmente vir até o blog e escrever qualquer coisa sobre mais um ou dois desfiles.

É preciso acrescentar que os problemas com minha conexão de internet e com o SSD do meu macbook (que decidiu parar de funcionar) ajudaram bastante nesse afastamento quase permanente. Mas também é possível que o meu estado de espirito tenha sido mesmo o principal responsável pelo abandono.

O fato é que, no começo de março, eu tive uma lesão nos joelhos (sim, em ambos). A consequente impossibilidade de correr fez com que meus dias ficassem muito mais difíceis nos últimos meses. Deprimente talvez fosse a palavra mais adequada. E eu não queria passar essa vibe sombria para os meus textos.

Também não via mais muito propósito em fazer críticas, mesmo que positivas, a estilistas que estão apresentando suas coleções. Assim, acabei deixando o tempo passar.

Pensei em vários assuntos para falar, mas nada me trazia para cá. Como a relação entre o No Hay Moda e eu estava meio estremecida, resolvi buscar novos ares. Fui parar no Youtube e, finalmente, criei o meu canal. O projeto era antigo e as ideias ainda não fluíram como eu gostaria, sobretudo em consequência de algumas questões de direitos autorais e falta de recursos.

Mas só de ter começado o canal, sozinha (sem ajuda pra nada), tendo que me superar a todo o momento, eu já me sinto realizada. Então, decidi trazer alguns vídeos pra cá. Espero que vocês gostem.

Uma temporada de desfiles para ficar na memória

Esta temporada de desfiles teve vários aspectos interessantes e até mesmo surpreendentes. Alguns estilistas resolveram voltar à época mágica da moda e produziram desfiles para ficar na memória. Esse é o caso de Antonio Marras que apresentou o seu inverno 2017 em um cenário pra lá de teatral, com performances que me fizeram lembrar de Sleep No More.

Maria Grazia Chiuri também não poupou esforços em sua estreia de couture na Christian Dior e criou um jardim labiríntico, repleto de simbolismos, dentro do Museu Rodin. A atmosfera onírica ganhou ainda mais força com a beleza sutil com que as modelos entraram na passarela, dando ainda mais destaque aos vestidos.

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John Galliano provocou burburinhos ao fazer uma parceria com o artista britânico Benjamin Shine e trazer para a passarela de alta-costura da Maison Margiela, um casaco ornamentado com um rosto realista costurados em tule sobre a peça.

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Já a grife Dolce & Gabanna não se contentou apenas com um desfile de apresentação de sua Alta Moda e produziu logo três: Alta Sartoria (masculino), Alta Gioilleria (jóias) e Alta Moda Laboratori del Teatro alla Scal (feminino). Assim mesmo, um atrás do outro, em dias seguidos, em uma semana dedicada a sua clientela mais abastada e bem nascida. E, por falar em bem nascidos, os herdeirxs mais influentes do momento ganharam também a passarela, dias antes, no desfile de “menswear” produzido por Domenico e Steffano.

Na contramão das super-produções, Donatella Versace decidiu apresentar a alta-costura do Atelier Versace em uma boutique da marca, na Avenue Montaigne, em Paris, em um evento frugal: sem passarela, sem modelos e sem ela própria. É, isso mesmo que você leu, Donatella sequer esteve presente para recepcionar os convidados, gerando, com isso, muitos boatos sobre o futuro da grife. Rumores à parte, ela mandou muito bem nessa coleção.

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Outra coleção que merece elogios é o verão 2017 couture de Ralf & Russo. A dupla fez um trabalho lindo e encheu a passarela com vestidos-desejo. Elegante, contemporâneo e eu diria até minimalista de certa forma, esse é o tipo de vestido que você veste e imediatamente se sente uma diva. Eu amei vários. 

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E para finalizar esse pequeno panorama da temporada, não poderíamos deixar de falar do desfile da chinesa Guo Pei e suas poderosas imagens de moda, na passarela do verão 2017 couture da grife. O desfile ocorreu no Conciergerie, onde Marie Antoinette foi presa imediatamente antes de sua decapitação, e a passarela ficou repletas de “rainhas” e “princesas” medievais, ornamentadas com vestidos surpreendentes. Entre elas, Carmen dell’Orefice que, sendo aplaudida, atravessou a passarela, aos 85 anos, para encerrar o desfile de forma linda. Mas você só vai ver tudo isso se clicar no play.

Antonio Marras | Haunted | Fall 2017

Faz tempo que estou ensaiando o retorno de férias aqui do blog. Estava com tantas ideias que não conseguia materializar nenhuma delas. Aí, de repente, Antonio Marras faz um desfile-show tão maravilhoso, no sábado, em Milão, que não pude simplesmente ignorá-lo ou deixar passar. Tive que voltar e dividir com vocês essa performance incrível que me lembrou Sleep no More. Ficou curioso? Então, não perde mais tempo, e clica logo no play.

A volta do mom jeans ou o fim da aventura humana na terra

Os indícios estão todos aí, para quem quiser ver, e não há arca de Noé que nos salve. O fim do mundo está próximo. Pior, talvez o mundo já tenha até acabado e nós estamos todos mortos, vivendo em um eterno purgatório, no qual nossos maiores medos se tornam reais. Essa, aliás, é a teoria mais provável. Ao menos, para mim, faz todo o sentido.

Não bastasse toda a desgraceira que você já ficou sabendo no texto anterior, ainda temos que lidar com o empurra-empurra dos famigerados mom jeans. Você pode não estar ligando o nome à pessoa, mas sabe bem do que estou falando. São exatamente aquelas calças de cintura alta, sem elastano, um tanto disformes, que nunca valorizaram ninguém (com raríssimas e magras exceções). Aquelas mesmas de que você se envergonha por tê-las usado, sempre que remexe em algum álbum de fotos do passado. Presentes também em filmes e séries que apresentam personagens geeks.

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Pois é, essas deformidades em forma de jeans que você achava que nunca voltariam, contrariando todas as probabilidades, voltaram. É aquela coisa, a indústria precisa criar desejos a todo instante. Sem esse anseio de consumo, ela não se sustenta. Então, tudo que vai, um dia volta. O que é in hoje, amanhã é out (já meio que diria Heidi Klum), sendo também o contrário, verdadeiro.

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E se tem uma coisa difícil nesse mundo é não cair no esquema da indústria. Sobretudo se você se interessa por roupas e consequentemente pela moda. As empresas pagam fortunas para revistas e blogueiras (de corpo esguio e boa lábia) convencerem a todos de que calças como essas são capazes de tornar as produções super incríveis. Você pode até não cair nessa falácia, mas com certeza muitas caem. Daí, quando decide conferir o street style de desfiles mundo a fora, você só encontra gente usando as ben(mal)ditas calças.

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São fotos tão variadas e tão bem produzidas que você até começa a considerar eficientes algumas ideias e esquece, por alguns segundos, tudo o que passou no ensino fundamental e/ou médio por causa delas. Além disso, eles incentivam as lojas a adquirirem quantidades imensas do produto e reduzirem consideravelmente as outras modelagens. Assim, quando você sai às compras, não há como fugir. Sem opção, só lhe resta dizer sim e a “tendência” se estabelece.

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Conspirações à parte, a única outra possível justificativa pra esse retorno estar acontecendo é: Deus, perdoai-as, elas não sabem o que fazem. Toda essa gente que usa esse tipo de jeans não viveu os dissabores da moda dos anos 1990 e quer testar tudo, até mesmo os limites do grotesco. Por isso, não são capazes de recusar um jabá e vão tentar lhe convencer de que, mesmo que você ache horrível, você pre-ci-sa desse jeans.

A pergunta que me faço todos os dias é: custava deixar as calças skinny, de cintura alta, reinarem por pelo menos uns 20 anos, ou até as pessoas se convencerem de que são elas, e não as mom jeans, a salvação dos flancos sobressalentes?!

Indústria, tenha piedade de nós e faz isso parar, eu imploro!

O enjoei e a comercialização da vida

2016 foi um ano ruim. Um ano ruim não só no aspecto político e de vida em sociedade, mas também no sentido pessoal. Um ano ruim para mim. Eu como pessoa, Ingrid Guerra.

Teve doenças, aumento de peso, explosões de espinhas, estresses mil, desgastes mentais, desilusão total e absoluta com a vida, inércia. Teve correr atrás do prejuízo, terapia relâmpago, matrícula em academia, ataques de choro. Teve de tudo. Sobretudo, momentos em que eu quis parar o mundo e descer.

Mas o mundo não para e eu fiquei aqui tentando encontrar uma maneira de mudar. Mudar o meu corpo, os meus sentimentos, mudar minhas ações e mudar de vida. Mudar é difícil.

Tive muita raiva. Raiva dos outros, raiva de mim, raiva até das minhas roupas. Eu não me encaixava mais naquilo tudo. Para que continuar guardando coisas que me trazem sofrimento, se essa é a parte mais fácil de mudar? Então, vamos lá, mexer nessas gavetas. Doar tudo. Fazer a alegria de outras pessoas.

Dei muita coisa. Com certeza ainda devo ter outras tantas para dar. Mas algumas roupas estão tão bem conservadas (ou mesmo quase novas, sem contar que preciso tanto de dinheiro), que pensei: por que não vendê-las?

Vai que vendendo umas coisinhas, ganhando uma graninha e liberando espaços, a vida mude. Não custa tentar, né?! Foi pensando assim que juntei tudo, tirei fotos, fiz legendas e comecei a cadastrar as peças no enjoei.

Não contava, porém, com minha sorte e com mais uma rejeição deste site delícia. Eles já haviam quase recusado um produto meu por problemas com fotos. O que foi mais do que injusto, diga-se de passagem. Sobretudo porque as fotos eram lindas, tiradas pelo Dani que manja dos paranauê. No fim das contas, descobri que a quase rejeição ocorreu porque um dos arquivos enviados foi errado, no tamanho miniatura, e isso dificultava a visualização no site (eles podiam ter avisado isso, ao invés de mandar um email avacalhando as fotos).

Desta vez o erro foi enviar, entre várias fotos de produto, uma foto usando a roupa que queria vender (eu só queria mostrar como ficava no corpo, para facilitar, e era uma foto só, entre outras 4 do produto). Depois disso, levei para o lado pessoal e desisti de lá.

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Mas, de alguma forma, esse processo me fez refletir. Refletir, não apenas sobre o potencial que certas atitudes têm de nos deixar mal, mas ainda, sobre como as coisas que poderiam ser feitas para o bem social acabam virando projetos que objetivam apenas o lucro e a frustração alheia. Entram aqui vários serviços disponíveis hoje em dia.

Iniciativas que a gente tende a achar excelentes, sem nem perceber que elas sempre existiram, mas não estavam envoltas em uma roupagem comercial, nem classificadas com nomes pomposos como economia compartilhada e criativa. Economia, aliás, era você poder vender suas coisas sem precisar pagar quantias altas para as expor; pegar carona e só ajudar no combustível se quisesse ou pudesse; e ter um cantinho pra dormir na casa de alguém que adora receber e conviver, assim, sem querer nada em troca.

Não sou saudosista, nem contrária a comercialização das coisas. Acho até bem interessante essas novas formas de negócios, quando feitas de forma justa. Só não consigo concordar quando uma ideia social vira apenas um meio de enriquecimento ou gerador de frustrações.

Ronaldo Fraga | Caderno de Roupas, Memórias e Croquis

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Tenho uma paixão tão grande por ilustrações que, se eu pudesse escolher um dom, adoraria saber desenhar. Por isso, visitar a exposição de Ronaldo Fraga ontem, na Casa de Cultura Mário Quintana, mexeu comigo.

Minha vontade era pegar todos aqueles desenhos pra mim e guardá-los numa caixinha, para que mais tarde eu pudesse colá-los em algum lugar, junto a textos que escrevi. Fazia muito isso quando era mais jovem.

Ilustrava também todos os textos que publicava em meus blogs com algum desenho que encontrava na web. Eles davam vida nova para as minhas histórias e alegravam as postagens mais densas.

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Saudosismos à parte, a exposição Ronaldo Fraga: Caderno de Roupas, Memórias e Croquis tá uma lindeza só e agrada qualquer coração sensível. Além dos desenhos, é possível conferir algumas peças confeccionadas pelo estilista e também objetos pessoais que o acompanharam em sua trajetória.

Então, se você mora em Porto Alegre e ainda não foi ver tudo isso, liga prxs amigxs e vai. A mostra acontece até o dia 11 de dezembro de 2016, no terceiro andar da CCMQ.

O horário de funcionamento da Casa é: de terças a sábados, das 10h às 19h e aos sábados e domingos, das 12h às 19h. Na Rua dos Andradas, 736, Centro Histórico.

CASA DE CRIADORES | Isaac Silva

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O outono-inverno 2017 de Isaac Silva parte de duas inspirações: uma delas é a cantora Elza Soares, que teve seu rosto estampado em vestidos-camisetas super estilosos. A outra, a geração tombamento — movimento que envolve questões ligadas ao empoderamento feminino, preconceito racial e LGBT

De cara dá pra perceber que o estilista se engaja em várias causas. Talvez seja por isso que sempre reserve um espacinho para as peças plus-size em suas coleções. Atitude que, convenhamos, todas as marcas deveriam ter.

O único problema é que Isaac ainda não compreendeu a silhueta deste público e com isso não gera o resultado que gostaria/poderia. A tarefa não é fácil, já que muitos fatores devem ser levados em conta: os tecidos e as modelagens precisam ser pensados de forma específica.

Não dá para simplesmente aumentar a numeração das peças. É preciso entender as curvas para valorizá-las. E infelizmente isso também não rolou desta vez.

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Clique no play e assista o desfile na íntegra.